O FUSCA DO ALMEIDA
Almeidinha acordou aquela segunda-feira, lá pelas 10 horas, feliz da vida,
era o primeiro dia na Reserva, tinha cantado no boletim da sexta-feira, e além
do mais era seu aniversário de casamento, nada podia dar errado naquele dia.
Seu primeiro pressentimento negativo veio quando, ao esbofetear o
despertador, sua mão sem querer acertou o copo cheio de água, onde flutuava sua
querida cremilda, companheira de tantos churrascos,
derrubando-a no carpete:
exclamou furioso: "- Futa que fariu, cade a forra da cremilda?"
(a cremilda havia rolado para embaixo de
sua cama, e se acomodado em seu chinelo esquerdo, ganho no ultimo dia dos pais
de 1992).
lembrou: "- Forra, esqueci de nofo a
forra dos meus óculos na fenteadeira da Maria Helena."
Sentou na beira da cama, coçou a careca e quando meteu o pé
esquerdo no chinelo, sentiu a dor, gritando: "- Forra, um escorfião me ficou."
Maria Helena, da cozinha, já preparava o café e respondeu: "-
Que foi meu velho ?
" -Num sei, forra, fui ficado, algo me ficou."
"- Que isso meu velho há muito tempo que você não fica mais,
deve ser o tal do tesão do
mijo, vai no banheiro que melhora."
"- É focê fai
fê !!!!,
depois eu te mostro como minha fica fica dura."
"- Brinca não !! hoje não é primeiro
de abril, meu véio e, vem logo toma teu café, pra
depois ir lá no quartel dá entrada na aposentadoria."
"- Forra, que merda fisei na cremilda."
Desolado, pegou aquele ser inerte com carinho e, levou pra pia do
banheiro, onde depois de várias escovadas, alojou a companheira na boca:
- " Porra, agora sim, tô falando direito."
- " Leninha,
cadê o Dia?"
- " Taquí
meu velho, pra quê?"
- " Preciso passar um e-mail pro
Bush, e sem o raio deste jornal é impossível."
Sentado, lia todas as manchetes, quando chegou nos
classificados, transmitiu o e-mail, um e-mail longo, porem firme, fino e
vigoroso. Levantou, olhou aquela criatura afogada, e pensou: "- Puta
merda, aquela dobradinha que comi na casa da minha sogra ontem, tava braba."
Puxou a cordinha e, a criatura, em forma de cascavel, teimava em
não descer. Duas, três, na quarta vez, suspirou
aliviado: "- Vai filha-da-puta!"
Depois da ducha fria, voltou pro quarto, abriu o armário, escolheu
uma calça Lee, já desbotada, com a bainha virada, uma camiseta branca, e um bamba cinza, deixando a farda azul de tantos anos no
cabide do armário.
Pensou: "- Porra, pela primeira vez saio
de casa, sem a gloriosa."
Na cozinha, tomou o café rapidamente, beijou Maria Helena, que
perguntou:
"- Sabes que dia é hoje?
"- Sei, é segunda-feira, meu primeiro dia como civil, depois
de 30 anos de PM."
e,
descendo as escadas até a garagem, pensou:
"- Ela acha que eu esqueci nosso aniversário de casamento,
mas está muito enganada, É hoje, que ela vai ver quem é o Velho Almeida."
O Fusca, modelinho 67, pegou de primeira, e Almeidinha
pensou:
"- Eh! carrão, de primeira, isso é
que é máquina!!!!!"
Acomodou o velho trezoitão, cinco tiros, entre as pernas, hábito antigo, ligou o rádio
AM na CBN, ajeitou o espelho retrovisor e o lateral, ligou o ventilador no
painel e, saiu pela porta da garagem do prédio, em alta velocidade.
No primeiro sinal, o celular tocou, era Maria Helena, Almeida
atendeu: "- Véio, ce tá onde?"
"- Tô no carro, pombas, acabei de sai de casa, bolas."
"- Num esquece di passá na feira e trazê dois pimentões pra fazê
recheado com carne moída."
"- Tá bom, tá bom, minha velha."
Parou na feira, comprou os raios dos pimentões, passou na barraca
das flores, mandou fazer um buquê bonito, afinal eram 25 anos de casado,
escolheu 2 dúzias de rosas vermelhas, e carinhosamente
acomodou no banco traseiro do possante, aquele seria seu presente, o prenúncio
de uma grande noite.
Pensou maliciosamente: "- Hoje eu me acabo."
Estacionou em frente a farmácia do seu
Osvaldo, e pediu baixinho: "- Meu peixe, me dá aquele diamante azul,
que hoje é dia."
Seu Osvaldo, perguntou: "- de 50 ou de 100?"
"- de 50, num preciso mais que isso, cê
vende avulso ou num tem nenhuma amostra grátis? "
"- Não, só a caixinha com quatro."
"- Porra, então me dá uma caixinha."
Seu Osvaldo, gritou pro fundo da loja: "-
PAULINHO, SOBE LÁ E PEGA UMA CAIXA DE VIAGRA DE 50 PRO MEU AMIGO AQUI."
Almeida gelou: "- Pô seu
Osvaldo, num precisava gritar desse jeito, pombas!"
"- Claro que precisava, o Paulinho é surdo desde menino, ué!"
A Farmácia inteira parou, até que a morena magrinha do caixa,
falou se insinuando: "- Nossa, Seu Allllllmmeida,
que violência é esta? Onde é que o senhor vai usar esta potência toda?
"- Num te interessa sua abusada, e faz favô
de dá logo o meu troco, pombas."
"- Puxa ! num precisa me esnobar não
tá, toma o trôco e some seu velho tarado.”
"- Velho tarado é seu pai, sua oferecida, isso aqui é pro meu
sobrinho tá sabendo!"
Envergonhado, escondeu a caixinha do diamante no fundo do bolso
direito de trás da calça, abriu a porta do fusca, ligou o possante, engatou uma
primeira e o kadron rugiu; segunda, terceira, pegou o
celular: "- Leninha, Leninha?"
"- Quié bem?"
"- Já comprei os pimentão."
"- É ?"
"- Aliás, ainda tem aquele Chateau Duvalier na geladeira, que sobrou do ultimo natal?"
"- Pra quê, meu velho?"
"- Sei não, tô cumas
vontade hoje."
"- HI! que isso meu velho, essas vontades, vão e vem, que ce tá pensando em fazê?"
- " Sei lá, tomá
uns goró, botá as criança
prá dormir cedo, depois você põe aquela camisola rosa com pom-pom,
e aquelas chinelas de seda, o CD do Frank Sinatra, aquele colonia
posion, sei lá......."
"- Que isso, meu velho, o perfume chama poison,
e tu tá tarado é ! andou tomando alguma coisa nova?"
"- Eu ? Eu ? por um acaso preciso
disso ? Tu me conhece, sou pegador, sempre pronto pro combate."
"- Meu velho......, volta logo pra
casa, depois a gente conversa........"
No sinal fechado, Almeida completava: "- Meu anjo, hoje
eu te ......."
Não conseguiu completar a frase, e a ligação caiu, quando ouviu
aquele som estridente: PiiiiiiiiiiiiiiiiiiUUUUUUUUUUUUU
!!!
O apito soou forte, no ouvido esquerdo, como se fosse uma sirene,
sua pressão foi a 19 por 13. O Guarda Municipal falou: "- Bonito, né dotô,
falando no celular ao volante e, sem o cinto...!”
Almeida desligando o celular: "- Quê isso federal, tá
querendo me matar, era uma chamada de emergência, e o cinto é abdominal, além
do mais tô parado, bolas!”
"- É, mas pode incostá aí na frente!"
"- Oh, federal, eu sou Coronel PM!"
"- È, e eu sou o Cesar Maia, ou tu achas que eu sou otário
prá acreditá que um Coronel PM, vai andá num fusca 67?"
"- Porra, é verdade, além do mais eu
sou amigo do Véia!"
"- O senhor conhece minha mãe?"
"- Não, sua anta, sou amigo do V E L
H A, o Comandante da Guarda Municipal do Rio, pombas!"
"- Quem?"
"- O Coronel Antunes da PMERJ, aquele que tá cedido a
Prefeitura desde que saiu Aspirante!"
"- Ah! sei quem é, o senhor é muito
amigo dele?"
"- Claro, fomos colegas de EPCAR, inclusive ele é um Maracujá
legitimo, tá sempre nos churrascos do Padilha e do COGAL."
"- Ah, então tudo bem, se o senhor é amigo do Coronel
Antunes, eu só vou lhe aplicar sete multas: uma pelo celular, outra pelo cinto,
outra pelo insulfilm que já está descascando, outra
pelo extintor vazio, outra pelo ventilador no painel que é proibido, outra pela
oncinha pendurada no vidro traseiro que acende os olhinhos quando senhor freia, que também é proibido, e a ultima pelos pneus carecas!"
"- Mas porquê essa violência toda,
esse abuso de poder?"
"- Aquele corno do seu amigo Maracujá, me
suspendeu o mês passado inteiro, sem salário, só porque eu tava na outra
esquina, tomando umas biritas no bar da Joana."
Almeida, pensou: "- esse Véia é mesmo um corno."
Argumentou: "- Meu peixe, sou da casa, olha aqui, de
novo, minha carteira de Coronel PMERJ..."
O Guarda pegou a carteira e ficou olhando: "- Porra,
grandes merda, pra tu tá num carro desses, ou é falsa, ou então tu tá num
clonado, aliás, acho melhor chamar a supervisão e o reboque, pra conferir a
vistoria."
Almeida, suou frio e pensou: "-
Porra, tem uns 5 anos que não faço vistoria, e num pago IPVA, tô perdido."
Apelou: "- Tá bom, tá bom, deixa pra lá, libera aí, Oh!
federal, num tem um acerto não?"
"- O QUÊ? acerto ? vou te enquadrar
por suborno na DP!”
"- O Senhor não entendeu, eu falei aperto de mão pela sua
competência!”
"- Ah, bom !, mas tem que assinar as
multas."
"- Manda lá pra casa, seu viado."
E acelerou, deixando o Guarda, falando e escrevendo sozinho.
Pensou: "- Puta merda, devo ter perdido uns cem pontos,
vou ligar pro Véia, pra vê se ele quebra essa (s)."
Estacionou no Quartel General, e foi até o Setor de Inativos e
Pensionistas. Sempre teve horror daquele lugar, parecia um cemitério, um local
onde todas as almas da PM se encontravam, mas enfim não tinha jeito. A fila era
grande, se aproximou do guichê, e o cabo perguntou: "- Bom dia, pois
não em que posso ajudá-lo?"
"- Sou o Coronel Almeida e quero resolver meu problema."
"- Reserva ou Reforma?"
"- RESERVA !!!!!!!!!!!, ou tu achas
que já virei defunto."
"- Tá bom, tá bom, não precisa gritar, fim da fila, o próximo!"
"- OH!, OH!, OH!, cê num tá entendendo, sou o CORONEL ALMEIDA!"
"- Chefe, aqui é a fila de quem já foi alguma coisa,
inclusive CORONEL, agora faz favor e desentope o guichê, o próximo!"
Humilhado, Almeida vai pro fim da fila e pensa: "-
Porra, aqui, Cabo da ativa manda mais que Coronel da reserva."
Três horas depois, a fila não anda, já
cansado e com o bamba apertando seu calo, Almeida descobre que o Cabo saiu pra
almoçar, e fixou um cartaz no guichê: "FECHADO PARA ALMOÇO: 12:00 AS 16:00
"
Pensa: "- Vou voltar amanhã de manhã cedo, e vou enquadrar
este corno deste Cabo, afinal sou matador, Coronel PM, trabalhei nas ruas e nas
favelas, mereço mais respeito, filho-da-puta..."
Voltando pro estacionamento, embarca em seu possante, abre os
vidros, liga o ventilador, e ao parar no primeiro sinal em frente a Estácio de
Sá, distraído, liga pra Maria Helena:
"- Bem !!!!!, já terminei, mas vou
ter que voltar amanhã cedo, sabe como é esse negócio de burocracia, muito
papel, né?"
"- Claro, meu velho, liga não, isso é uma nova vida."
"- Cê tem raz........."
P E R D E U ! P E R D E U ! P E R D E U !
Almeida não entendeu direito aquele grito, e só se deu conta do
problema, quando virando o rosto para a esquerda, viu o cano do AR15 na altura
do nariz, e suou frio, pensando: "- dancei!"
O Negão falou: "- aí mermão! tu perdeu, sai logo, e passa a capanga, o celulá, o bobo e as jóia."
Almeida entrega tudo; a capanga, o celular, o relógio seiko, a aliança, e o canivete suiço
falsificado que tinha ganhado na rifa em São Cristóvão.
O Magrão completou: "- IH!!!!, Tuchinha! alá o cara tá cum berro." e
apontou pro trezoitão do Almeidinha,
a esta altura no piso do possante.
O Negão condenou: "- É Belzebu, o cara é cana com
certeza, fecha, fecha, fecha, fecha logo ele."
Almeidinha, quase desfalecendo, via sua vida passar diante de seus olhos: a
chegada em BQ, o primeiro VI, o golpe do iogurte no
rancho, os esporros do chumbinho, o cachorrão (aluno,
polegar também é dedo), a primeira experiência na Dora, a segunda no Rancho
Alegre, o primeiro isolamento de tantos na enfermaria; enfim tudo passava pela
sua mente a uma velocidade vertiginosa.
Pensou: "- Eu, matador, caçador, sniper,
campeão de tiro e de sinuca da PM, comandante de PATAMO de GETAM de GESTAPO de
ROTA, vou morrer diante desses delinqüentes, OH! Deus, que ironia do destino."
O Negão ponderou: "- Pera aí,
Belzebu, olha a carteira dele primero pra gente tê certeza de quem nóis passemos o serol!"
A sorte: "- Ué, Tuchinha, o
cara é aluno duma tal de ÉPÊCAR, o cara é estudante, mermão."
Almeida lembrou: o Guarda Municipal havia ficado com sua
identidade da PM, e eles acharam sua carteira de BQ, guardada estes anos todos
com carinho na capanga, e agora ?
Tuchinha: "- Libera o cara, é um fudido,
o berro deve ser do pai dele, e além do mais, estudante, com
essa idade, sei não...."
Belzebu: "- Me dá esse berro pra cá e dá linha, vaza,
some, desaparece, e leva tua carteira de estudante, seu merda."
Almeida, parou de correr, quando chegou no
quinto quarteirão, e ofegante pensou: "- Filhos-da-puta,
agora eles vão saber quem é o CORONEL ALMEIDA."
Procurou o primeiro orelhão funcionando, e discou 190: "-
Boa tarde, Policia Militar, podemos ajudar?
"- Claro, pombas, fui assaltado, levaram meu carro, agora
nesse minuto."
"- Calma, calma, seu nome, profissão, modelo, ano e cor do
veiculo, e local da ocorrência."
"- Sou CORONEL PMERJ ALMEIDA, fusca, 67, amarelo ôvo, em frente a Estácio de Sá."
"-
AH! AH! AH! AH! AH! AH! AH! AH! AH! AH! AH!”
"- Tá rindo do quê, seu porra?"
"- Um Coronel da PM num fusca 67?"
"- E daí?"
"- Senhor, impossível, de qualquer maneira,
numero do RG, por favor."
Almeida, ainda tremulo pelo susto, enfiou a mão no bolso, e leu: - "247766"
"- Um momento."
"- Não confere."
"- Como não confere?"
"- NÃO CONFERE!!!!, não existe
nenhum Coronel PMERJ com este RG."
Almeida, lembrou: "- Merda,
dei o número da carteira de BQ."
Apelou: "- Olha aqui sou o Coronel Almeida, e manda
logo uma patrulha aqui neste endereço pra fazer uma incursão, caceta!"
"- Senhor, olha o linguajar, tá tudo
sendo gravado, de qualquer forma é impossível."
"- Porquê?"
"- Estamos com uma grande operação no morro do Turano e não dispomos de nenhuma viatura no momento."
"- Merda, e agora?"
"- A solução é aguardar."
"- Como aguardar....!"
"- Um momento....... ".... .... .... ....
.... ..... "
Senhor, o seu carro é um fusca amarelo antigo?"
"- É sim, é sim, é sim!"
"- Boas noticias, localizamos seu veiculo."
"- OH! Deus, ótimo, onde ele está?"
"- Bom, este é um outro problema,
pois seu carro faz parte de um bonde, e já ultrapassou três blitzes.
Mas não se preocupe, uma guarnição comunicou que conseguiu ferir gravemente um
dos elementos a bordo, ou o motorista ou o carona, não sabemos ainda, pois a
quantidade de sangue no veículo é muito grande."
"- E o carro?”
"- Bom, o carro é outro problema, o senhor tem
seguro?””
"- Não, porquê?”
"- Porquê, segundo o informe da
terceira guarnição, quando o carro passou por eles, estava mais furado que
peneira, e já tinha perdido dois para-lamas e soltava
muita fumaça."
"- Fumaça? Por ondê?"
"- Pelo capô."
"- Mas o motor é atrás."
"- Então deve ter sido a bomba."
"- Que bomba ? a bomba de gasolina
desse carro é atrás."
"- Não, não, a bomba que a segunda guarnição jogou nele."
"- Não acredito ! como é que vocês
atiram e jogam uma bomba num carro dessa forma, pombas?"
"- Chefe, o motorista não parou, o
senhor queria que as guarnições fizessem o quê?"
"- Um momento......................."
"- Que foi?"
"- Finalmente, seu carro foi localizado."
"- Putz, ainda bem, tá aonde?"
"- Só amanhã."
"- Como só amanhã?"
"- A guarnição informa que devido a
presença de grande quantidade de elementos armados em volta do veiculo, só vão
poder chegar perto dele de manhã, com a luz do dia."
Almeida, pensou: "- OH! Deus,
perdi meu velho companheiro de tantos carnavais."
Desliga, e desolado com a única coisa que lhe resta, faz sinal
para um ônibus.
O Cobrador pede: "- É um e sessenta e cinco, meu tio, e
se tivé trocado facilita."
Almeida, lembra: "- Oh, chefia!
sou aluno."
O Cobrador encara o Almeidinha de cima
em baixo: "- aluno de quê? mostra a carteira!"
Almeida pega sua querida carteira e mostra para o Cobrador: "-
HI!, sei não, carteira de 71?"
"- É, e daí, tu nunca viu aluno velho?"
"- Já vi de tudo quanto é golpe, meu tio, mas essa aí de mostrá carteira de aluno de 30 anos atrás,
é a primeira vez, além do mais a foto não bate, o cara da foto tem mais
cabelo que o tio, ou será que tu tá usando a carteira do teu sobrinho?"
Almeida, quase perdendo o controle: "- Escuta aqui: é o
seguinte, meu camarada, primeiro lugar num sou teu tio, e num quero nem te contá o que me aconteceu, se não tu vai chorar junto
comigo, tá sabendo!"
"- Tá bom, tá bom, meu tio, entra logo e senta aí!"
Almeida, pensa: "- Puta merda,
que dia!!!!!"
Desceu no ponto a quase seis quarteirões de casa, e chegou já na
hora do Jornal das Dez.
"- Lennnnnnnnnna,
abre a porta faz favor, esqueci a chave."
"- Como esqueceu a chave, tu deve ter perdido essa chave em
alguma sacanagem, seu velho tarado, isso é hora de chegar em
casa!"
"- Num foi não, minha véia (aquele
nome ainda lhe doía quando falava), abre logo, pombas."
"- Sei não, cadê teu carro?"
"- Nem te conto!"
"- Cadê os pimentões?"
"- Nem te conto!"
"- Cadê tua aliança?"
"- Nem te conto!"
"- Cê sabe que dia é hoje, seu
velho tarado."
"- Sei, eu sei, é dia de nosso aniversário de casamento."
"- E o que você trouxe pra mim?"
"- Nem te conto!"
Almeida argumentou: "- É surpresa, vamos comer o resto
da dobradinha que tu trouxe ontem da casa da tua mãe,
abrir aquela garrafa de Chateau Duvalier,
que depois eu te mostro."
Maria Helena desconfiada, foi para
cozinha, e Almeida se trancou no banheiro: "- Deus, que dia, se eu
contar pra ela, não vai acreditar, é melhor eu tomar esse diamante logo, que
ela vai vê só uma coisa."
O jantar foi normal, Maria Helena se preparou para a grande noite,
colocou sua camisola rosa, suas chinelas, e foi para a suíte do casal.
Almeida, sentiu primeiro o rubor facial,
ainda na sala de jantar, e depois que sua língua endurecia rapidamente. Foi
lavar os pratos e escutou a voz meiga vinda da penumbra da suíte: "-
Veeeem meeeu vééééio, me dá meu presente, que hoje a noite é nossa."
Almeida balbuciou: "- Só um minuto que bou no vanheiro."
Frenético, entrou de novo no banheiro, acendeu a luz, buscou a
bula do diamante, e leu aterrorizado a letrinha minúscula: "TOMAR COM
PRECAUÇÃO, CAUSA RUBOR FACIAL E ENDURECE O ÓRGÃO SEXUAL ATIVO"
Deu descarga na bula e pensou:
"- E agora ? Oh dia! Oh! azar ! a única
coisa dura aqui é a minha língua."
Botou o pijamão velho de guerra, apagou
a luz do banheiro e foi se deitar, cansado daquele dia, estacionou a cremilda no copo, virou pro lado e escutou: "- E
aí meu velho, que dia é hoje? "
"- Amanhã te conto!"
E DORMIU O
SONO DOS JUSTOS...